Doce ilusão de que os tempos de outrora eram mais fáceis - toda época tem seus problemas.
As coisas eram menos complicadas, não existiam tantos futuros em jogo.
Eu era uma garota simples, sonhadora, que caminhava pela praia cheia de ilusões, medos, esperando que o mar acabasse com as minhas dúvidas.
Essa inocência me faz falta. Essa ingenuidade.
Hoje a vida me faz admitir culpas, permitir erros, tolerar o que jamais pensaria na possibilidade de tolerar, só em busca de um bem maior, a paz de espírito.
Vivemos nos mais variados grupos, nos adaptamos aos quais queremos pertencer, perdemos um pouco da própria essência, tentando agradar a todos e não a nós mesmos.
Sinto saudade dos tempos de criança, onde a minha única preocupação era terminar a lição de casa para poder brincar um pouco mais.
Saudade da minha mãe me dando broncas...
Saudade do tempo em que aparência não era defeito de caráter.
Saudade dos meus amigos, das longas conversas nas tardes depois da escola... Do Forte e da Casa Rosa com seu chão repleto de lembranças alheias e momentos apimentados...
Saudade de ver o pôr-do-sol ser cortado por veleiros nas tardes de dezembro... De agradecer a Deus todas as vezes que via aquela imagem...
Saudade de caminhar até cansar, mas ser acalentada pelo vento em meus cabelos e pelo balanço do mar...
Saudade disso.
Desse “é porque é”, desse “por que sim”, sem explicação. Sem racionalização. Sem neurose, medos, motivos obscuros, sem levar vantagem.
Essa inocência me fazia menos hipócrita... Hoje preciso de uma manual de regras para viver nessa sociedade...
Acho que o que me resta de inocência é a minha virgindade.
Não a inocência de manter essa membrana ridícula, que não significa nada. Inocência virgem que me permite ficar horas e horas beijando. Porque toda virgem, aproveita sua inocência ao máximo.
O que importa por cima ou de costas, quem bota o que onde, hetero, gay, trans ou homoafetivo?
O que importa é beijar... Com calma, e ao mesmo tempo com ansiedade, descobrindo o outro. Sentindo taquicardia e borboletas no estômago.
Hoje, a pressa e a falta de inocência é quase um mata-borboletas, um baygon.
Ser inocente não tem preço. Te permite ser livre. Livre do medo de ser bobo, livre do medo de se expor, de se mostrar. Do medo de gostar e não ser gostado de volta.
Saudade dessa minha inocência que se perde a cada dia em lugares desconhecidos e que jamais poderei reencontrar.